Alceu, Jackson, forró… e frevo

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Muitos sabem do fato, mas de toda forma vale ressaltar: o pernambucano Alceu Valença, um dos protagonistas do capítulo “Cabeludos do futuro”, é um contador de histórias compulsivo.
Ele estava em Brasília, em março de 2012, para apresentar o musical “Estória de João Joana”, de Sérgio Ricardo, ao lado de Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, quando foi procurado para dar seu depoimento para nosso livro. Queríamos que ele falasse especialmente sobre a relação musical com Jackson do Pandeiro (foto acima). Com admirável disposição e divertindo-se com as próprias memórias, Alceu rememorou essa convivência alternando as lembranças de episódios vividos com considerações sobre assuntos diversos.

E foi além, nos presenteando com narrativas não necessariamente relacionadas a Jackson, como a primeira vez em que esteve com Luiz Gonzaga, quando fazia um show em Juazeiro e recebeu convite do Rei do Baião para tomar café na fazenda dele, lá em Exu. Mas, embora tenha chegado a gravar com Gonzagão tempos depois, foi com o Rei do Ritmo que Alceu manteve relação mais aproximada. Com Jackson ele construiu uma cumplicidade na andanças dos dois pelo Brasil, quando fizeram juntos o Projeto Pixinguinha, e nos bastidores dos festivais de música em que se dividiram o palco.
No primeiro deles, cantaram “Papagaio do futuro”, de Alceu. Mas foi só muito tempo depois que Jackson teve coragem de fazer a Alceu uma pergunta relacionada à música.

— Ele dizia “toda música é mensagem, tem que ter uma mensagem”, e aí, talvez em função da situação, da política na época, da ditadura, como a letra de “Papagaio” era muito complicada, ele perguntou qual era a mensagem, o que era papagaio do futuro para mim. Isso já viajando, depois de vários anos. Ele diz: “É o falador?”. Aí eu digo: “Papagaio do futuro pode ser a gente também, pode ser o ser humano”. Claro, “Papagaio do futuro” falava de poluição, de questões ecológicas também.

Alceu revelou também que foi Jackson quem o incentivou a cantar frevo:

— Ele falava mais rápido do que eu. Paraibano fala mais rápido do que pernambucano, talvez porque lá tenha mais coco de embolar. Por ele falar rápido, ele dizia pra mim que eu era um dos poucos que podia cantar frevo, que eu tinha queixada. Queixada significa pronúncia rápida. Ele dizia para cantar ‘foró’ e coco você consegue cantar quando tem queixada, e ele vinha: “E você também podia cantar frevo, você é um dos poucos que pode cantar frevo”. “Por quê?”. “Porque você fala rápido, depressa, e pronuncia bem as palavras”. Então foi por isso que gravei um frevo. Ele tinha gravado um frevo (cantando): “Eu só queria que um dia/O frevo chegasse a dominar/Em todo o Brasil/ O micróbio do frevo é de amargar/ Quando entra no salão é que/ O povo prefere pra dançar/ Eu queria que você um dia fosse/ A Pernambuco pra ver… “ (“Micróbio do frevo”). (R.R)

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