Encontro de gigantes

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Um dos motivos de satisfação do nosso trabalho em “O fole roncou!” foi a possibilidade de jogar luz na trajetória de compositores que são, quase sempre, menos conhecidos do que suas criações.

É o caso do paraibano Antonio Barros, que com a companheira Cecéu, assinou grandes sucessos populares, como “Procurando tu” (o maior hit do Trio Nordestino), “É proibido cochilar”, entre tantos outros. Eles também assinam dois dos maiores êxitos radiofônicos de Ney Matogrosso, gravados na virada para os anos 1980: “Homem com H”  e “Por debaixo dos panos”.

E, na segunda semana de dezembro, os três tiveram a oportunidade de se encontrar em João Pessoa, onde Matogrosso foi homenageado na noite de abertura da oitava edição do Festival de Aruanda do Audiovisual Brasileiro, com a exibição do documentário “Olho Nu”, de Joel Pizzini, sobre o cantor. A produção do festival, por meio da jornalista Maria do Rosário Caetano, nos forneceu um registro fotográfico do encontro de três gigantes – os dois compositores, da linha de frente da Música Brasileira Popular; o cantor, representante do primeiro time da Música Popular Brasileira. Acima, a foto, de Rafael Cusato.

Para conhecer mais sobre as composições de Antonio Barros e Cecéu, cantaroladas até hoje em todo o país, vale a pena ler o capítulo  “De lascar o cano”, de “O Fole Roncou!”.  (C.M)

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Adeus a João Silva

É com muito pesar que ficamos sabendo que morreu, no dia seis de dezembro no Recife, o cantor e compositor João Silva, um dos principais personagens de “O fole roncou!”. Pernambucano de Arcoverde, João era uma figuraça: suas histórias, ainda mais por causa da forma que ele as contava, mereciam um livro (e um filme) à parte.
Em dezembro de 2010, passei uma tarde conversando com ele em um modesto apartamento na Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, e saí de lá tão entusiasmado quanto inebriado pela certeza da importância de ajudar, de alguma forma, a preservar aquelas histórias. Houve outras conversas e encontros depois, o mais recente em junho desse ano no Fórum de Forró de Aracaju, onde João dividiu o palco com Onildo de Almeida: os dois compartilharam causos impagáveis e, com simplicidade e sem marketing, aumentaram ainda mais a minha admiração pelo talento de ambos.
Autor de “Danado de bom”, “Nem se despediu de mim”, “Deixa a tanga voar” e outros sucessos de Luiz Gonzaga, João faz parte da memória musical brasileira – ainda que boa parte do Brasil não associe o nome, simples como os seus versos, à pessoa. Abaixo, ele aparece em retrato, feito para o nosso livro, pelo fotógrafo Ricardo Labastier.
Teria muito mais a dizer sobre esse gigante da música brasileira popular e sobre a sua generosidade em compartilhar de forma irrestrita a gênese de suas músicas, mas por enquanto o que prevalece são as lembranças – e o silêncio.
E tu nem se despediu da gente…. Descanse em paz, João. Obrigado pelas músicas e pelas palavras! (C.M)

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Vida e obra de Zé Clementino

“Certo mesmo é um ditado do povo/ Pra cavalo velho, o remédio é capim novo…”

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Quem não conhece os versos acima, refrão de um dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga nos anos 1970? “Capim Novo”, conhecida nacionalmente pela inclusão na trilha da primeira versão da novela Saramandaia, foi escrita pelo compositor cearense Zé Clementino (1936-2005). A inspiração para a letra é autobiográfica, revela Jurani Clementino no livro “Zé Clementino: o “matuto” que devolveu o trono ao Rei”, lançado em agosto de 2013 pela editora da Universidade Estadual da Paraíba, por meio do selo Latus.

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Com 240 páginas, o livro destaca Clementino como “um sensível cronista da vida do Nordeste” e tem o objetivo de apresentar um “Zé Clementino que é resultado das várias impressões, diversos olhares e pontos de vista”. Por meio de depoimentos de familiares, amigos próximos e reprodução de entrevistas, o autor traça um perfil de um parceiro de Gonzaga que, ao contrário de outros, compositores nunca deixou sua terra natal: Várzea Alegre,  a mais de 400 km de Fortaleza, e homenageada no hino que Clementino escreveu para a cidade e na música “Contrastes de Várzea Alegre”, gravada pelo Rei do Baião, e assim analisada por Jurani: “Os contrastes demonstram ainda a capacidade perceptiva e observacional do autor, que ao se referir aos fatos curiosos da cidade, deixa claro a sua veia humorística, o seu poder irônico e sua poesia singular”, comenta o autor no capítulo “Desvelando os contrastes”.
Para os fãs e estudiosos da obra do Rei do Baião, o livro é particularmente revelador, pois conta como Clementino escreveu sucessos como “Xote dos cabeludos”, o desabafo de Seu Luiz com as mudanças no comportamento masculino no final dos anos 1960. “Era uma espécie de protesto a uma moda que fazia a cabeça dos homens `modernos´”, lembra Jurani, citando um trecho emblemático da letra, gravada em 1967: “Cabra do cabelo grande, cinturinha de pilão/ Calça justa bem cintada, costeletas bem fechadas, salto alto, fivelão/ Cabra que usa pulseira, no pescoço um medalhão/ Cabra com esse jeitinho no sertão do meu Padim/ Cabra assim não tem vez, não”.
No livro, Jurani também reproduz entrevista de Clementino ao Diário do Nordeste nos anos 1970, quando ele detalha como funcionava sua parceria musical com o Rei do Baião: “As composições que Luiz Gonzaga gravou foram encaminhadas com melodia e letra. O Rei do Baião dava uma ajeitada, impunha o seu estilo. E a música passava a ser dos dois. Aceitava essa situação, queria a parceria”, explica o compositor.

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Jurani reconstitui ainda a visita que Gonzaga fez, em agosto de 1985, ao autor de “Sou do banco” e “O jumento é nosso irmão”, quando elogiou o parceiro: “Ele é bom nas letras das músicas autenticamente nordestinas”. O livro também destaca o papel da professora Ana Emília, sobrinha de Clementino, na catalogação da obra do tio, que desconhecia a quantidade de músicas que havia escrito. “Muitas vezes, a professora teve que recorrer a Zé Clementino para saber o que significava determinada palavra, verso, uma vez que o áudio estava praticamente incompreensível”. Ana Emília, ao final do trabalho, pôde quantificar as músicas do tio, gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Sirano, Dominguinhos, Trio Nordestino, Messias Holanda e Genival Lacerda.
No fim do livro, o autor reproduz os discos de Gonzaga que incluem músicas de Clementino, entre eles “Óia eu aqui de novo”, “O sanfoneiro do povo de Deus”, “Sertão 70” e “Capim Novo”, e ainda inclui a relação de todas as músicas de Clementino, citadas por título e intérprete. “Até março de 2005, foram gravadas 41 músicas, que somadas as 20 regravações, totalizam 61 interpretações, distribuídas entre 32 intérpretes do cancioneiro popular a nível nacional e regional”, contabiliza o autor. “Zé Clementino: O `matuto´que devolveu o trono ao Rei”, é um livro indispensável para pesquisadores da música brasileira e para aqueles que desejam conhecer mais sobre a vida e obra do autor que morreu aos 69 anos e deixou versos que até hoje habitam a memória do povo nordestino. Se houver uma segunda edição de “O Fole Roncou!”, certamente este trabalho de Jurani Clementino constará como referência e fonte de pesquisa.  (C.M)

Foto Gonzaga e Clementino: Blog do Sanharol

Manuscritos muito especiais

Reproducao: Abelardo Mendes Jr

 

Uma das alegrias que tivemos com a edição de “O fole roncou!” foi a possibilidade de, mesmo modestamente, dar a nossa contribuição para a preservação de originais de clássicos da música brasileira popular.

Durante a produção do livro, pedimos a alguns de nossos entrevistados que escrevessem as letras de seus maiores sucessos para reproduzirmos em nossas páginas, e eles aceitaram a proposta. Assim, no livro, surgem manuscritos de músicas conhecidíssimas como “Severina Xique-Xique” (escrita por João Gonçalves), “Danado de bom” (João Silva), “Eu só quero um xodó” (Anastácia/Dominguinhos) e “Homem com H” (Antonio Barros).

Acima, uma dessas preciosidades: a letra de “A Feira de Caruaru”, manuscrita especialmente para o livro por seu compositor, o radialista pernambucano Onildo Almeida. Gravada em 1957 por Luiz Gonzaga, a música se tornou um dos maiores sucessos do Rei do Baião e a história da canção é contada no capítulo “Tem de tudo na feira”. Onildo inclusive explica a origem de dois termos quase indecifráveis: “carça de arvorada” (tipo de brim semelhante à lona, que trabalhador usava na roça a semana inteira, depois lavava e usava para ir à cidade) e “caneco acuviteiro” (na verdade, “alcoviteiro”, porque ficava entre o namorado e a namorada, na mesa da sala, à luz do candeeiro, pois não havia luz elétrica nas casas).

Esses manuscritos, como diz a letra de Onildo, faz gosto a gente ver!

 

Mas… e a palavra “forró”?

É antiga a discussão em torno da origem da palavra forró.

Há quem defenda a tese de que ela surgiu do inglês “for all”. Isso porque, segundo contam, os ingleses que se estabeleceram no Nordeste para construir a ferrovia tinham o hábito de promover festas, algumas exclusivas para eles, outras abertas ao público. Nessas ocasiões, colocavam uma placa na porta do barracão: “For all”, ou seja, para todos. Na mesma linha, a presença de militares norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial, teria provocado o uso da corruptela da expressão “for all” – esta versão inclusive batiza um filme brasileiro, “For All – o Trampolim da Vitória”, de Luiz Carlos Lacerda. Nenhuma delas, contudo, é comprovada.

A outra teoria é de que forró é uma contração de forrobodó, como eram chamadas as festas no sertão, que sempre acabavam em confusão. E a expressão teria passado a ser comumente usada a partir do uso no título de músicas como “Forró de Mané Vito” e “Forró em Limoeiro”, sucessos, respectivamente, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Em “O fole roncou! Uma história do forró”, preferimos não nos aprofundar nessa discussão, considerando que esse não era o foco do livro e correríamos o risco de não chegar a uma conclusão. Por outro lado, consideramos que faz muito mais sentido a segunda versão, referendada por depoimentos de artistas como Marinês e Biliu de Campina, transcritos no livro.

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– Esse negócio que a palavra forró veio de for all é frescura. Vem de forrobodó, forrobodança, música do pé-rapado, música da ralé. Significa festa, fuzarca, pagode, zamba, zambê, samba, pagode, função, brinquedo. Forró é um local onde se canta tudo. Forró é tudo. Não é ritmo, nunca foi – defende Biliu (foto).

– Isso começou quando Jackson do Pandeiro começou a cantar “Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá”. Mas o forró é o espaço onde se dança, não a música que se canta. Alguém se aproveitou de Jackson, de Gonzaga, de Marinês… E tudo virou forró – garante Marinês.

Em 1948, no seu livro “Brasil Sertanejo”, uma de nossas fontes de pesquisa, Zé do Norte já dava a definição para forró: ““Baile na roça. Significa também barulho, conflito.”

Na entrevista que nos concedeu para o livro, Onildo Almeida, compositor de “A feira de Caruaru” e outros grandes sucessos de Gonzaga, se deteve sobre o assunto:

– Eu, quando tenho uma oportunidade, contesto a versão que os intelectuais dão ao forró, dizendo que foram os americanos que chegaram aqui e batizaram: “For all, música para todos”. Não é. O forró nasceu no tempo em que não existia baião, não existia xote, não existia música nordestina. Ela existia, mas não tinha definição de nada, era o samba do matuto. “Hoje vai ter um samba no brejo de fulano, no sítio, na fazenda de fulano”. Um samba queria dizer uma festa. E no outro dia, vez por outra, aparecia comentário: “Olha, no samba de fulano teve um forrobodó da moléstia, mataram um, esfaquearam não sei quem, teve uma briga não sei com quem…” Deram esse nome, forrobodó. Como esse acontecimento, a que deram o nome de forrobodó era comum nos sambas do matuto, aí começaram a dizer “no forró do fulano”. Aí vem Luiz Gonzaga com o baião, criou o xote, marcha junina, saiu criando coisa. Em 1946, ele lançou o forró, Forró de Mané Vito… Eu tenho essa dúvida, se foi Luiz Gonzaga, mas eu diria que ele criou, ele definiu. Gonzaga criou o forró, o forró de Mané Vito, daí por diante foi o forró do fulano, forró do sicrano, forró não sei de quê… Virou um gênero, e um gênero tão forte que englobou todos os outros ritmos. Forró hoje é qualquer música nordestina, coco, baião, xote, arrasta-pé, marcha junina…

Onildo se arrisca até a inverter a versão de  que “for all” deu origem a forró:

– Eu deduzi que deve ter acontecido o seguinte: aportavam muitos navios no Recife e os marinheiros iam pro cassino americano, no Pina, e lá se tocava forró. Então, eles devem ter perguntado: “O que é isso?”. E o cabra respondeu: “É forró”. E um disse pro outro:  “É for all”. Que dizer, foi exatamente o contrário. Isso pode ter acontecido, mas dizer que eles batizaram de forró não cabe na cabeça! (Rosualdo Rodrigues)

 

Foto de Biliu de Campina: Carlos Marcelo

A picardia de João Gonçalves

Ao longo dos três anos de trabalho de “O fole roncou!”, uma das descobertas que mais nos entusiasmou foi perceber que alguns dos compositores que entrevistamos tinham na ponta da língua a história do nascimento de algumas de suas mais conhecidas criações.

O paraibano João Gonçalves, por exemplo, narrou tintim por tintim como teve a ideia de criar “Severina Xique-Xique” e o seu encontro com Genival Lacerda para mostrar a música – essa história você confere em “Todos conhecem Severina”, o capítulo 11 do livro.

Foi quase uma tarde inteira com João Gonçalves em sua casa, no Jardim Quarenta, em Campina Grande. Cercado pelas capas de seus discos e cópias de matérias publicadas em jornais, o autor de “Pescaria em Boqueirão” repassou, com rara franqueza, os altos e baixos de sua carreira – incluindo aí alguns dos episódios mais dramáticos do livro, quando Gonçalves foi censurado, teve discos queimados e foi proibido de cantar alguns de seus maiores sucessos na Paraíba (confira no capítulo “Ô Lapa de Tesoura!”).

Para quem não sabe, Gonçalves rendeu músicas menos conhecidas, mas igualmente mordazes, que mostram a capacidade do compositor de observar as mudanças do seu tempo e dos que estavam ao seu redor. É o caso de “Hipie (sic) de araque”, gravada no disco de estréia do cantor na gravadora Tapecar, para onde foi levado por Oséas Lopes, do Trio Mossoró. Confira, no vídeo, como nasceu a letra de “Hipie”, que fala de um colega do compositor que “não era hippie, não era nada”, usava “macacão com cheiro de gambá” e um cabelo “que parece um arapuá”:

Lua e eu: causos de Fuba de Taperoá

Entre os nossos 80 entrevistados, tivemos a sorte de localizar nomes que, apesar de não tão conhecidos do grande público, têm muitas histórias para contar por terem sido testemunhas oculares da trajetória dos maiores nomes do forró. É o caso de Juberlino Martins Levino. Ele nasceu em 1942 em Taperoá, Paraíba – mesma cidade onde nasceu Abdias, outro personagem marcante do nosso livro. Juberlino vive desde muito tempo em São Paulo, depois de chegar ao Rio de Janeiro viajando em cima de uma carga de sal e lá descobrir que emprego mesmo tinha era na capital paulista.

Juberlino é mais conhecido por Fuba. Fuba de Taperoá, pandeirista e cantor. Foi um dos primeiros entrevistados para o livro. Abriu as portas de sua casa, em subúrbio de Guarulhos, São Paulo. Contou toda a sua saga, na luta entre uma empreitada e outra como pedreiro e a vontade de viver de música (hoje consegue, tem discos gravados e sempre um showzinho na agenda). Contou também da convivência com os grandes nomes do forró, como, por exemplo, Dominguinhos, com quem trabalha há mais de 30 anos, e com Luiz Gonzaga. “Trabalhei com ele. Não trabalhei muito, mas trabalhei”, lembra ele, que era chamado de “Cuba” pelo Rei do Baião. A convivência entre os dois pode não ter sido tão longa, mas deixou boas lembranças, como a viagem que fizeram para Mato Grosso.

O próprio Fuba conta:

“Era um negócio de índio, uns índios assim civilizado. Aí fizemos o show e fomos pro hotel e ‘agora vamos jantar’. Rapaz, tinha um colega dele, o homem tinha três fazendas, tinha servido o exército mais ele, parece que em Minas Gerais, naquele meio de mundo. Aí ia empareado eu, ele e o finado Azulão pro restaurante jantar. E aquele senhor lá atrás gritando ‘Luiz ô Luiz, é fulano de tal’, e ele nem ligava, fazia que não tava ouvindo, mas eu sabia que ele tava ouvindo. Ai ele disse ‘rapaz, tu não te lembra de mim, a gente serviu exército junto’. Ele nem aí. ‘Ô Luiz, eu quero te dar um boi’. Aí ele: ‘Hãaaa?’ Aí rapaz, a gente foi jantar… Esse homem tinha preparado uma mesa que parecia para umas 15 pessoas, só pra nós quatro. Eu fiquei bestinha com aquilo, como é que pode? O homem… Vou te contar: o maior respeito”.

Mas tem uma história anterior a essa. Fuba estava desempregado quando apareceu um show pra fazer no qual Gonzaga também participava. Criou coragem e foi procurar Gonzaga em um hotel para pedir emprego como músico permanente. Foi lá no quarto dele e bateu.

–  Ô Seu Luiz, queria falar com o senhor, se fosse possível.

– O que é que você quer?
– Eu queria trabalhar com o senhor.

– Olhe, não vai ser possível (“Naquele tempo ele andava com dois sobrinhos, mais outro zabumbeiro”, lembra Fuba). Vocè sabe que tem meus meninos aí, já tão comigo, tudo bem…

Passado o show, chegaram ao aeroporto, e Gonzaga puxou a bolsa e saiu pagando a equipe, “nota de cinco, nota de dez, depois deu um vento, espalhou tudo aquilo no pátio, haja o pessoal do aeroporto correndo atrás das notas e a entregar pra ele”. Foram embora.

Tempos depois, o pandeirista paraibano já estava trabalhando com Dominguinhos quando se hospedou no mesmo hotel que Gonzaga, no Rio de Janeiro. “Ele chegou, olhou pra mim e disse ‘ô Cuba, você vai trabalhar comigo’. Eu disse ‘e agora?’. Porque, a gente nordestino tem uns que é fiel, né? Eu disse ‘seu Luiz, não vai dar mais não’. Também aquela palavra fechou, né? Não disse nem A nem B, porque ele gostava muito de Dominguinhos. Eu disse ‘seu Luiz, eu não vou descobrir um santo pra cobrir outro. E ele ‘você tá certo’. (R.R)

Foto: Érica Catarina (Saróba)  http://www.ericatarina.com.br

Onildo, o sincero amigo do Rei

Um dos personagens que aparecem com destaque no livro é o compositor e radialista pernambucano Onildo Almeida, que brilha em capítulos como “Tem de tudo na feira”. Além de fornecer histórias impagáveis graças à memória prodigiosa, Onildo nos presenteou com o manuscrito de seu maior sucesso, “A feira de Caruaru”, reproduzido na abertura do segundo caderno de imagens (o livro contém fotos, reproduções de capas de discos e também manuscritos de compositores como Anastácia, Antonio Barros, João Gonçalves e João Silva).
O que pouca gente sabe é como nasceu a amizade do caruaruense com Luiz Gonzaga, ainda em 1957.
Toda vez que ia à cidade pernambucana, o que fazia com freqüência, Seu Lua encontrava o amigo, de quem gravou mais de 20 músicas. “Ele gostava muito de Caruaru, decantou muito Caruaru, tinha quatro ou cinco músicas falando da cidade. Perguntavam a ele ‘rapaz, você é de Caruaru? Você canta tanto Caruaru’, e ele dizia ‘sou filho postiço de Caruaru, com muito orgulho’. Aqui ele se hospedou muitas vezes lá em casa. Sempre que ele passava por Caruaru ia lá em casa, me mostrava o trabalho pra eu dar opinião”, contou Onildo, hoje um elegante senhor de 83 anos, que se mantém em atividade à frente da Rádio Cultura de Caruaru, da qual é proprietário, ao lado do irmão.
Em entrevista concedida para o livro no hall do Museu do Forró, em Caruaru, Onildo lembrou que a amizade, inclusive, o permitia emitir opiniões que nem sempre agradavam a Gonzagão. “Eu dava muito pitaco na vida de Gonzaga e ele ficava meio… ‘você acha?’, e eu digo ‘acho’. Ele voltava: ‘É, você tinha razão?’”.
Uma dessas vezes foi quando o cantor apareceu por lá com o disco De fiá pav inas mãos. E foi logo se pavoneando:
–  Você não me mandou música, pois olhe, eu gravei o disco, tá aqui. Vendi 150 mil cópias.
–  Vendeu 150 mil cópias, mas o título do disco tá errado.
–  Nããão! É De fiá pavi, sim, e é o sucesso do disco.
– É não…
– E por que tá errado?
–  Por que o ditado é “de fio a pavio”, não é “de fiá pavi”, não.
– É, mas já…
– Mas mas, não.. Tá errado, tá errado. Eu não aceito. Não é minha opinião que você quer? Minha opinião é essa.Depois disso, Onildo ouviu o disco todinho e disse mais ao amigo.

– Olhe, só tem uma música aí que vai puxar o disco. Não é essas coisas não, mas é bonitinha. É água com açúcar, agrada. É “Nem se despediu de mim”.

“Aí quando é 20 dias depois, ele vem de Exu e diz ‘mas rapaz, você é um danado. A música que tá puxando o disco é ‘Nem se despediu de mim’. Então, eu adquiri uma certa credibilidade”, me contou o compositor, na entrevista lá em Caruaru. Mais sobre Onildo, incluindo uma improvável e inspiradora incursão dele no primeiro Rock in Rio, de 1985, você encontra nas páginas de “O fole roncou!” (R.R).