Um abraço Violado

Uma das coisas mais bacanas que estão acontecendo agora, quase seis meses depois do lançamento, é o retorno que temos recebido dos que separaram um tempinho para enfrentar as mais de 400 páginas do nosso livro.

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Emociona quando esse retorno vem de forma espontânea de pessoas que têm envolvimento direto com as histórias por nós narradas em “O fole…”. É o caso de Marcelo Melo (foto), um dos fundadores do Quinteto Violado, que nos enviou email com suas impressões sobre o livro e autorizou que compartilhássemos as suas palavras com os leitores do blog. Eis o que disse o Marcelo:

“Gostei muito do formato e da maneira como a narrativa se desenvolve, realçando aspectos pitorescos e especiais que forjaram as vidas desses artistas que fizeram e dos que ainda fazem a  história da nossa musica regional nordestina. Sobretudo por contextualizar com os momentos políticos e empresariais das referidas épocas e de cada um. Fiquei muito encantado com a leitura, inclusive por haver testemunhado muitos dos episódios narrados: o Quinteto viveu de perto os fatos com muitos daqueles personagens. Realmente, vocês conseguiram passar um filme quase completo das trajetórias desses ases do forró. Claro que um livro é pouco pra se contar tudo dessa vida forrozeira, mas…! Parabéns e vou recomendá-lo aos amigos. Grande abraço violado!!!”

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Valeu, Marcelo. Ter o reconhecimento de uma das cabeças de um grupo tão importante como o Quinteto Violado, que lançou discos essenciais como “A Feira” e “Missa do Vaqueiro”,  é motivo de muito orgulho pra gente!

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Alceu, Jackson, forró… e frevo

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Muitos sabem do fato, mas de toda forma vale ressaltar: o pernambucano Alceu Valença, um dos protagonistas do capítulo “Cabeludos do futuro”, é um contador de histórias compulsivo.
Ele estava em Brasília, em março de 2012, para apresentar o musical “Estória de João Joana”, de Sérgio Ricardo, ao lado de Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, quando foi procurado para dar seu depoimento para nosso livro. Queríamos que ele falasse especialmente sobre a relação musical com Jackson do Pandeiro (foto acima). Com admirável disposição e divertindo-se com as próprias memórias, Alceu rememorou essa convivência alternando as lembranças de episódios vividos com considerações sobre assuntos diversos.

E foi além, nos presenteando com narrativas não necessariamente relacionadas a Jackson, como a primeira vez em que esteve com Luiz Gonzaga, quando fazia um show em Juazeiro e recebeu convite do Rei do Baião para tomar café na fazenda dele, lá em Exu. Mas, embora tenha chegado a gravar com Gonzagão tempos depois, foi com o Rei do Ritmo que Alceu manteve relação mais aproximada. Com Jackson ele construiu uma cumplicidade na andanças dos dois pelo Brasil, quando fizeram juntos o Projeto Pixinguinha, e nos bastidores dos festivais de música em que se dividiram o palco.
No primeiro deles, cantaram “Papagaio do futuro”, de Alceu. Mas foi só muito tempo depois que Jackson teve coragem de fazer a Alceu uma pergunta relacionada à música.

— Ele dizia “toda música é mensagem, tem que ter uma mensagem”, e aí, talvez em função da situação, da política na época, da ditadura, como a letra de “Papagaio” era muito complicada, ele perguntou qual era a mensagem, o que era papagaio do futuro para mim. Isso já viajando, depois de vários anos. Ele diz: “É o falador?”. Aí eu digo: “Papagaio do futuro pode ser a gente também, pode ser o ser humano”. Claro, “Papagaio do futuro” falava de poluição, de questões ecológicas também.

Alceu revelou também que foi Jackson quem o incentivou a cantar frevo:

— Ele falava mais rápido do que eu. Paraibano fala mais rápido do que pernambucano, talvez porque lá tenha mais coco de embolar. Por ele falar rápido, ele dizia pra mim que eu era um dos poucos que podia cantar frevo, que eu tinha queixada. Queixada significa pronúncia rápida. Ele dizia para cantar ‘foró’ e coco você consegue cantar quando tem queixada, e ele vinha: “E você também podia cantar frevo, você é um dos poucos que pode cantar frevo”. “Por quê?”. “Porque você fala rápido, depressa, e pronuncia bem as palavras”. Então foi por isso que gravei um frevo. Ele tinha gravado um frevo (cantando): “Eu só queria que um dia/O frevo chegasse a dominar/Em todo o Brasil/ O micróbio do frevo é de amargar/ Quando entra no salão é que/ O povo prefere pra dançar/ Eu queria que você um dia fosse/ A Pernambuco pra ver… “ (“Micróbio do frevo”). (R.R)

Parabéns, Rei do Baião!

“Nasci em Exu, E-X-U, Fazenda Araripe, Pernambuco, no dia 13 de dezembro de 1912.Sou filho de Januário, sanfoneiro de profissão, e Dona Santana, sertaneja forte e bonita. O que eu mais ouvi quando eu era criança foi a sanfona do meu pai”.

Luiz Gonzaga completaria 100 anos nessa quinta-feira.

O homem que apresentou o Nordeste ao resto do Brasil é o principal mestre-de-cerimônias do nosso livro. Sua música, a cada ano, fica mais jovem. E nunca vai envelhecer. “Estou quase convencido de que estou realmente importante”, declarou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 1968. E quem ainda não se convenceu?

Obrigado, Gonzagão: o que você fez pela nossa música e pelo nosso país nem o tempo é capaz de apagar. É seu aniversário, mas quem ganhou o presente fomos todos nós.

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De quem são essas sandálias?

E aí, alguém adivinha de quem são essas sandálias tão características? Dica: é de um dos nossos entrevistados. Mais à frente, a gente traz a resposta – e, quem sabe, um brinde pra quem acertar…

Encontro com Geraldo Correia

Autor da dissertação de mestrado Com Respeito aos oito baixos – Um estudo etnomusicológico sobre o estilo nordestino da Sanfona de oito baixos (UFRJ, 2011), o músico e pesquisador Leonardo Rugero nos deu uma entrevista preciosa, utilizada no último capítulo do livro. Na entrevista, que mais à frente aparecerá na íntegra neste blog, Rugero define o paraibano Geraldo Correia como “João Gilberto dos oito baixos”:

– Arredio e de poucas palavras, Geraldo se manteve a maior parte do tempo relativamente recluso,o que se reflete em sua carreira errática e sua discografia pouco numerosa. No entanto, em oposição ao seu isolamento,é um sanfoneiro mítico,  influenciando gerações seguintes e deixando sua marca indelével de intérprete e criador. Muito intenso, consegue derramar na música tudo aquilo que não deixa transparecer em seu temperamento introvertido.

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Pois bem: posso dizer que o encontro com Geraldo, na varanda de sua casa, em Campina Grande, foi um dos momentos de maior realização profissional da minha carreira. A entrevista aconteceu em 23 de dezembro de 2010, e teve a participação decisiva do cantor e embolador Biliu de Campina, figuraça que está no livro e que também será tema de post mais à frente.

Biliu ajudou a “quebrar o gelo” com o naturalmente arredio Geraldo, conhecido pelos amigos e nas rodas de choro pelo apelido de Mucufa. Recuperando-se de uma queda, ainda sentindo fortes dores nas costas, Mucufa superou as dificuldades e nos contou histórias de seu convívio com Jackson do Pandeiro (uma delas, dramática, está no livro), com o pernambucano Moacir Santos, dos forrós onde tocou no Rio e em São Paulo, de como conheceu Pedro Sertanejo, das gravações que fez no selo Cantagalo, das serenatas que fez com músicos do porte de Abel Ferreira e Porfírio Costa… episódios reunidos em mais de oito décadas de existência.

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Com Biliu (C) e Geraldo Correia, em Campina Grande: lições de música e de vida

Ao seu estilo, com poucas palavras, Geraldo Correia nos deu uma definição sucinta e precisa para o seu ofício:

– Música é ritmo, harmonia e sentimento.

A surpresa veio no fim da entrevista. De súbito, Geraldo levantou da varanda e entrou em sua casa. Alguns minutos depois, voltou com sua sanfoninha e, sem dizer uma palavra, começou a tocar. Fez um pequeno concerto no qual impressionou pela destreza e apuro – e nos emocionou pela lindeza daquelas composições. Esse momento foi tão marcante que uma tentativa de reproduzi-lo aparece no epílogo do livro. Mas, mais do que o registro, ficou a lembrança do que aconteceu naquela manhã quente em Campina Grande, quando, faltando dois dias para o Natal, Geraldo Correia nos presenteou com a força da sua música. (CM)

 

 

Fotos: Carlos Marcelo e João Henrique Carvalho (segunda foto)