O fole roncou em João Pessoa!

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O lançamento de “O fole roncou!” em João Pessoa, no Zarinha Centro de Cultura, foi uma noite muito especial.

Não só pela presença de nossos familiares, dos amigos pessoenses e dos apreciadores do forró.

Mas, em especial, pelas participações luminosas de Biliu de Campina e João Gonçalves, dois dos nossos entrevistados do livro, que, com seus depoimentos, nos ajudaram decisivamente para chegarmos ao resultado final – basta dizer que a cena descrita na abertura do primeiro capítulo, sobre a chegada de Luiz Gonzaga a Campina Grande, veio das lembranças de Biliu. Já Gonçalves, o mais censurado dos forrozeiros, tem sua trajetória reconstituída em capítulos como “Ô lapa de tesoura!”.

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Biliu logo conquistou o público ao dar a sua versão para a palavra “forró”, provocando muitas gargalhadas. Também falou bastante sobre a obra de Jacinto Silva e Jackson do Pandeiro, dois de seus mestres.

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João Gonçalves, mesmo convalescendo de um problema de saúde, teve disposição suficiente para cantar trechinhos de alguns de seus maiores sucessos, como “Áz de Copas”, “Severina Xique-Xique” e “Pescaria em Boqueirão” – e foi acompanhado por boa parte do auditório, que sabia de cor as músicas que a censura quis silenciar.

Ao fundo, tivemos a projeção de fotos que fazem parte da história da música nordestina, muitas delas incluídas no livro, e outras que selecionamos especialmente para este lançamento, como a de Marinês que aparece nessa foto, enquanto Gonçalves dá o seu recado.

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No auditório lotado, a presença especial de pessoas como Osvaldo Travassos, ator e radialista que conduziu por muito tempo na Rádio Tabajara o programa “Paraíba é sucesso”, uma das nossas fontes de pesquisa.

Depois do bate-papo com Biliu e João Gonçalves, subimos para o terraço do centro cultural, onde foi realizada a sessão de autógrafos. Com a praia de Tambaú ao fundo, e a brisa do mar para aliviar o calor, o forró comeu solto com a excelente performance de Sussa de Monteiro e seus músicos, que fizeram muita gente sair dançando enquanto a gente autografava os livros.

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E não foi só a gente que gastou caneta: Biliu e Gonçalves também distribuíram autógrafos e posaram para fotos; nada mais justo, afinal eles nos ajudaram – e muito – a contar essa história.

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Ao fim da noite, a satisfação de perceber que o evento foi também uma chance de homenagear o talento e a verve de Biliu e Gonçalves, dois nomes que ajudaram a escrever a história da música brasileira popular – que não necessariamente é a música popular brasileira (mpb), mas isso é tema para outro post.

Por enquanto, só vale celebrar “uma noite de ouro”, como definiu um dos convidados, e convidar os pernambucanos para o próximo lançamento, no fim de janeiro, no Recife. Em breve, vamos confirmar a data e o local.

Valeu, João Pessoa!

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Chegou a vez de João Pessoa!

Na próxima quinta-feira, é a vez de fazermos o primeiro lançamento de “O fole roncou!” no Nordeste.
A cidade escolhida foi João Pessoa, por motivos logísticos e afetivos: afinal, parte dos amigos e de nossas famílias moram lá. Por isso, será um lançamento bem especial, com a participação de alguns de nossos entrevistados para o livro, entre eles Biliu de Campina e João Gonçalves, que vão falar sobre sua carreira e suas músicas mais marcantes, antes da sessão de autógrafos, animada por Sussa de Monteiro.
Esperamos todos os forrozeiros paraibanos por lá!

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Mas… e a palavra “forró”?

É antiga a discussão em torno da origem da palavra forró.

Há quem defenda a tese de que ela surgiu do inglês “for all”. Isso porque, segundo contam, os ingleses que se estabeleceram no Nordeste para construir a ferrovia tinham o hábito de promover festas, algumas exclusivas para eles, outras abertas ao público. Nessas ocasiões, colocavam uma placa na porta do barracão: “For all”, ou seja, para todos. Na mesma linha, a presença de militares norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial, teria provocado o uso da corruptela da expressão “for all” – esta versão inclusive batiza um filme brasileiro, “For All – o Trampolim da Vitória”, de Luiz Carlos Lacerda. Nenhuma delas, contudo, é comprovada.

A outra teoria é de que forró é uma contração de forrobodó, como eram chamadas as festas no sertão, que sempre acabavam em confusão. E a expressão teria passado a ser comumente usada a partir do uso no título de músicas como “Forró de Mané Vito” e “Forró em Limoeiro”, sucessos, respectivamente, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Em “O fole roncou! Uma história do forró”, preferimos não nos aprofundar nessa discussão, considerando que esse não era o foco do livro e correríamos o risco de não chegar a uma conclusão. Por outro lado, consideramos que faz muito mais sentido a segunda versão, referendada por depoimentos de artistas como Marinês e Biliu de Campina, transcritos no livro.

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– Esse negócio que a palavra forró veio de for all é frescura. Vem de forrobodó, forrobodança, música do pé-rapado, música da ralé. Significa festa, fuzarca, pagode, zamba, zambê, samba, pagode, função, brinquedo. Forró é um local onde se canta tudo. Forró é tudo. Não é ritmo, nunca foi – defende Biliu (foto).

– Isso começou quando Jackson do Pandeiro começou a cantar “Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá”. Mas o forró é o espaço onde se dança, não a música que se canta. Alguém se aproveitou de Jackson, de Gonzaga, de Marinês… E tudo virou forró – garante Marinês.

Em 1948, no seu livro “Brasil Sertanejo”, uma de nossas fontes de pesquisa, Zé do Norte já dava a definição para forró: ““Baile na roça. Significa também barulho, conflito.”

Na entrevista que nos concedeu para o livro, Onildo Almeida, compositor de “A feira de Caruaru” e outros grandes sucessos de Gonzaga, se deteve sobre o assunto:

– Eu, quando tenho uma oportunidade, contesto a versão que os intelectuais dão ao forró, dizendo que foram os americanos que chegaram aqui e batizaram: “For all, música para todos”. Não é. O forró nasceu no tempo em que não existia baião, não existia xote, não existia música nordestina. Ela existia, mas não tinha definição de nada, era o samba do matuto. “Hoje vai ter um samba no brejo de fulano, no sítio, na fazenda de fulano”. Um samba queria dizer uma festa. E no outro dia, vez por outra, aparecia comentário: “Olha, no samba de fulano teve um forrobodó da moléstia, mataram um, esfaquearam não sei quem, teve uma briga não sei com quem…” Deram esse nome, forrobodó. Como esse acontecimento, a que deram o nome de forrobodó era comum nos sambas do matuto, aí começaram a dizer “no forró do fulano”. Aí vem Luiz Gonzaga com o baião, criou o xote, marcha junina, saiu criando coisa. Em 1946, ele lançou o forró, Forró de Mané Vito… Eu tenho essa dúvida, se foi Luiz Gonzaga, mas eu diria que ele criou, ele definiu. Gonzaga criou o forró, o forró de Mané Vito, daí por diante foi o forró do fulano, forró do sicrano, forró não sei de quê… Virou um gênero, e um gênero tão forte que englobou todos os outros ritmos. Forró hoje é qualquer música nordestina, coco, baião, xote, arrasta-pé, marcha junina…

Onildo se arrisca até a inverter a versão de  que “for all” deu origem a forró:

– Eu deduzi que deve ter acontecido o seguinte: aportavam muitos navios no Recife e os marinheiros iam pro cassino americano, no Pina, e lá se tocava forró. Então, eles devem ter perguntado: “O que é isso?”. E o cabra respondeu: “É forró”. E um disse pro outro:  “É for all”. Que dizer, foi exatamente o contrário. Isso pode ter acontecido, mas dizer que eles batizaram de forró não cabe na cabeça! (Rosualdo Rodrigues)

 

Foto de Biliu de Campina: Carlos Marcelo