Vida e obra de Zé Clementino

“Certo mesmo é um ditado do povo/ Pra cavalo velho, o remédio é capim novo…”

capimnovo

Quem não conhece os versos acima, refrão de um dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga nos anos 1970? “Capim Novo”, conhecida nacionalmente pela inclusão na trilha da primeira versão da novela Saramandaia, foi escrita pelo compositor cearense Zé Clementino (1936-2005). A inspiração para a letra é autobiográfica, revela Jurani Clementino no livro “Zé Clementino: o “matuto” que devolveu o trono ao Rei”, lançado em agosto de 2013 pela editora da Universidade Estadual da Paraíba, por meio do selo Latus.

capaclementino

Com 240 páginas, o livro destaca Clementino como “um sensível cronista da vida do Nordeste” e tem o objetivo de apresentar um “Zé Clementino que é resultado das várias impressões, diversos olhares e pontos de vista”. Por meio de depoimentos de familiares, amigos próximos e reprodução de entrevistas, o autor traça um perfil de um parceiro de Gonzaga que, ao contrário de outros, compositores nunca deixou sua terra natal: Várzea Alegre,  a mais de 400 km de Fortaleza, e homenageada no hino que Clementino escreveu para a cidade e na música “Contrastes de Várzea Alegre”, gravada pelo Rei do Baião, e assim analisada por Jurani: “Os contrastes demonstram ainda a capacidade perceptiva e observacional do autor, que ao se referir aos fatos curiosos da cidade, deixa claro a sua veia humorística, o seu poder irônico e sua poesia singular”, comenta o autor no capítulo “Desvelando os contrastes”.
Para os fãs e estudiosos da obra do Rei do Baião, o livro é particularmente revelador, pois conta como Clementino escreveu sucessos como “Xote dos cabeludos”, o desabafo de Seu Luiz com as mudanças no comportamento masculino no final dos anos 1960. “Era uma espécie de protesto a uma moda que fazia a cabeça dos homens `modernos´”, lembra Jurani, citando um trecho emblemático da letra, gravada em 1967: “Cabra do cabelo grande, cinturinha de pilão/ Calça justa bem cintada, costeletas bem fechadas, salto alto, fivelão/ Cabra que usa pulseira, no pescoço um medalhão/ Cabra com esse jeitinho no sertão do meu Padim/ Cabra assim não tem vez, não”.
No livro, Jurani também reproduz entrevista de Clementino ao Diário do Nordeste nos anos 1970, quando ele detalha como funcionava sua parceria musical com o Rei do Baião: “As composições que Luiz Gonzaga gravou foram encaminhadas com melodia e letra. O Rei do Baião dava uma ajeitada, impunha o seu estilo. E a música passava a ser dos dois. Aceitava essa situação, queria a parceria”, explica o compositor.

gonzagaeclementino

Jurani reconstitui ainda a visita que Gonzaga fez, em agosto de 1985, ao autor de “Sou do banco” e “O jumento é nosso irmão”, quando elogiou o parceiro: “Ele é bom nas letras das músicas autenticamente nordestinas”. O livro também destaca o papel da professora Ana Emília, sobrinha de Clementino, na catalogação da obra do tio, que desconhecia a quantidade de músicas que havia escrito. “Muitas vezes, a professora teve que recorrer a Zé Clementino para saber o que significava determinada palavra, verso, uma vez que o áudio estava praticamente incompreensível”. Ana Emília, ao final do trabalho, pôde quantificar as músicas do tio, gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Sirano, Dominguinhos, Trio Nordestino, Messias Holanda e Genival Lacerda.
No fim do livro, o autor reproduz os discos de Gonzaga que incluem músicas de Clementino, entre eles “Óia eu aqui de novo”, “O sanfoneiro do povo de Deus”, “Sertão 70” e “Capim Novo”, e ainda inclui a relação de todas as músicas de Clementino, citadas por título e intérprete. “Até março de 2005, foram gravadas 41 músicas, que somadas as 20 regravações, totalizam 61 interpretações, distribuídas entre 32 intérpretes do cancioneiro popular a nível nacional e regional”, contabiliza o autor. “Zé Clementino: O `matuto´que devolveu o trono ao Rei”, é um livro indispensável para pesquisadores da música brasileira e para aqueles que desejam conhecer mais sobre a vida e obra do autor que morreu aos 69 anos e deixou versos que até hoje habitam a memória do povo nordestino. Se houver uma segunda edição de “O Fole Roncou!”, certamente este trabalho de Jurani Clementino constará como referência e fonte de pesquisa.  (C.M)

Foto Gonzaga e Clementino: Blog do Sanharol