“Arretado e crucial”

“Livro arretado e crucial para entender a criação e a evolução de parte importante (e subestimada) da música brasileira”.

Assim o crítico Mauro Ferreira definiu “O fole roncou!” em extensa e pormenorizada crítica no seu respeitado blog, “Notas Musicais”. Eis outro trecho da análise do jornalista carioca:

“Escrito a partir da feitura de mais de 80 entrevistas, O Fole Roncou! – Uma História do Forró também relata os fatores sociais que impulsionaram a migração nordestina para o eixo Rio-SP e, por consequência, acabaram dando visibilidade ao forró além das fronteiras nordestinas. Os autores cruzam as histórias de personagens como os paraibanos Antonio Barros (compositor de numerosos sucessos do gênero) e Jackson do Pandeiro (1919 – 1982), outro pilar da musical Nação Nordestina. De alma paraibana, a pernambucana Marinês – nome artístico de Inês Caetano de Oliveira (1935 -2007), a eterna Rainha do Xaxado – também é personagem de grande presença na narrativa, dimensionada na medida de sua importância para a música nordestina.”

O bacana da crítica é que Mauro Ferreira comenta todo o livro, destacando partes que nos são bem caras – como a reconstituição das trajetórias de Pedro Sertanejo e Abdias, e o papel de Emanoel Gurgel na criação e formatação do forró eletrônico. Mesmo as suas ressalvas são pertinentes, ainda que valha a pena esclarecer uma delas:  não criamos nenhum dos diálogos incluídos no livro, apenas os reproduzimos como nos foram relatados por nossos entrevistados e nos depoimentos de Marinês, Jackson e Luiz Gonzaga aos quais tivemos acesso.

Para ler na íntegra a análise de Mauro Ferreira, que deu a cotação de quatro estrelas para o livro, clique aqui:

http://blognotasmusicais.blogspot.com.br

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Mas… e a palavra “forró”?

É antiga a discussão em torno da origem da palavra forró.

Há quem defenda a tese de que ela surgiu do inglês “for all”. Isso porque, segundo contam, os ingleses que se estabeleceram no Nordeste para construir a ferrovia tinham o hábito de promover festas, algumas exclusivas para eles, outras abertas ao público. Nessas ocasiões, colocavam uma placa na porta do barracão: “For all”, ou seja, para todos. Na mesma linha, a presença de militares norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial, teria provocado o uso da corruptela da expressão “for all” – esta versão inclusive batiza um filme brasileiro, “For All – o Trampolim da Vitória”, de Luiz Carlos Lacerda. Nenhuma delas, contudo, é comprovada.

A outra teoria é de que forró é uma contração de forrobodó, como eram chamadas as festas no sertão, que sempre acabavam em confusão. E a expressão teria passado a ser comumente usada a partir do uso no título de músicas como “Forró de Mané Vito” e “Forró em Limoeiro”, sucessos, respectivamente, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Em “O fole roncou! Uma história do forró”, preferimos não nos aprofundar nessa discussão, considerando que esse não era o foco do livro e correríamos o risco de não chegar a uma conclusão. Por outro lado, consideramos que faz muito mais sentido a segunda versão, referendada por depoimentos de artistas como Marinês e Biliu de Campina, transcritos no livro.

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– Esse negócio que a palavra forró veio de for all é frescura. Vem de forrobodó, forrobodança, música do pé-rapado, música da ralé. Significa festa, fuzarca, pagode, zamba, zambê, samba, pagode, função, brinquedo. Forró é um local onde se canta tudo. Forró é tudo. Não é ritmo, nunca foi – defende Biliu (foto).

– Isso começou quando Jackson do Pandeiro começou a cantar “Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá”. Mas o forró é o espaço onde se dança, não a música que se canta. Alguém se aproveitou de Jackson, de Gonzaga, de Marinês… E tudo virou forró – garante Marinês.

Em 1948, no seu livro “Brasil Sertanejo”, uma de nossas fontes de pesquisa, Zé do Norte já dava a definição para forró: ““Baile na roça. Significa também barulho, conflito.”

Na entrevista que nos concedeu para o livro, Onildo Almeida, compositor de “A feira de Caruaru” e outros grandes sucessos de Gonzaga, se deteve sobre o assunto:

– Eu, quando tenho uma oportunidade, contesto a versão que os intelectuais dão ao forró, dizendo que foram os americanos que chegaram aqui e batizaram: “For all, música para todos”. Não é. O forró nasceu no tempo em que não existia baião, não existia xote, não existia música nordestina. Ela existia, mas não tinha definição de nada, era o samba do matuto. “Hoje vai ter um samba no brejo de fulano, no sítio, na fazenda de fulano”. Um samba queria dizer uma festa. E no outro dia, vez por outra, aparecia comentário: “Olha, no samba de fulano teve um forrobodó da moléstia, mataram um, esfaquearam não sei quem, teve uma briga não sei com quem…” Deram esse nome, forrobodó. Como esse acontecimento, a que deram o nome de forrobodó era comum nos sambas do matuto, aí começaram a dizer “no forró do fulano”. Aí vem Luiz Gonzaga com o baião, criou o xote, marcha junina, saiu criando coisa. Em 1946, ele lançou o forró, Forró de Mané Vito… Eu tenho essa dúvida, se foi Luiz Gonzaga, mas eu diria que ele criou, ele definiu. Gonzaga criou o forró, o forró de Mané Vito, daí por diante foi o forró do fulano, forró do sicrano, forró não sei de quê… Virou um gênero, e um gênero tão forte que englobou todos os outros ritmos. Forró hoje é qualquer música nordestina, coco, baião, xote, arrasta-pé, marcha junina…

Onildo se arrisca até a inverter a versão de  que “for all” deu origem a forró:

– Eu deduzi que deve ter acontecido o seguinte: aportavam muitos navios no Recife e os marinheiros iam pro cassino americano, no Pina, e lá se tocava forró. Então, eles devem ter perguntado: “O que é isso?”. E o cabra respondeu: “É forró”. E um disse pro outro:  “É for all”. Que dizer, foi exatamente o contrário. Isso pode ter acontecido, mas dizer que eles batizaram de forró não cabe na cabeça! (Rosualdo Rodrigues)

 

Foto de Biliu de Campina: Carlos Marcelo