Música e emoção em Aracaju

Uma noite de surpresas, homenagens e emoção.

Assim podemos resumir o lançamento de “O fole roncou!” em Aracaju, no encerramento da 12ª edição do Fórum de Forró, na última sexta-feira, na capital sergipana. O Fórum tem o objetivo maior de preservar a história e as reflexões em torno dos grandes nomes da música nascida no Nordeste, e, graças ao entusiasmo de seu idealizador e coordenador, Paulo Corrêa, e à seriedade e simpatia do trabalho de sua equipe, a missão vem sendo cumprida com êxito.

Logo na chegada ao hotel, um encontro com a cantora Irah Caldeira, mineira de Timóteo, radicada em Pernambuco. Ela, que havia participado da noite anterior do Fórum, nos presenteou com seus mais recentes CDs e levou seu exemplar de “O fole”.

Depois, uma conversa muito esclarecedora com a professora cearense Elba Braga Ramalho, autora de livros como “Luiz Gonzaga —  A Síntese poética e musical do Sertão”, tema da palestra que ministrou na noite de abertura do Fórum.

A caminho do Teatro Atheneu, a chance única de escutar — e gargalhar — com os causos de Onildo Almeida e João Silva, dois compositores que tiveram grandes sucessos gravados por Luiz Gonzaga, Marinês e tantos outros cantores. Ali estavam reunidas, duas lendas vivas do forró: afiados e muito bem humorados, promoveram troca de “provocações” que, na verdade, representavam uma tremenda demonstração de afeto e de respeito.

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O entrosamento da dupla, ainda mais reforçada pela sanfona e pelas histórias de Gennaro, acabou sendo o grande destaque da noite de encerramento do evento. Mediado por José Augusto de Almeida, que nos apresentou de forma descontraída e ainda ofereceu um panorama da música sergipana, o debate pegou fogo quando João Silva e Onildo começaram a contar suas histórias, levando o auditório às gargalhadas.

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Encerrada a conversa, uma honra: o recebimento do Troféu Gerson Filho, uma escultura de barro especialmente confeccionado pelo artista local Beto Pezão.

Depois da entrega dos troféus, muita música. Primeiro, com Gennaro (“Antes, quando eu estava no Rio, era Genário, depois quando voltei para o Nordeste, mudei para Gennaro porque ninguém por aqui falava o I”), que chegou a integrar o Trio Nordestino, e, entre outros, tocou com Luiz Gonzaga e Marinês. Ele contou histórias de sua trajetória, entremeadas com músicas que todos reconheciam logo nos primeiros acordes. Depois, o sanfoneiro chamou Onildo Almeida para cantar e o pernambucano, com classe e elegância, interpretou alguns de seus sucessos imortalizados na voz de Gonzaga, como “Rei Centenário”. Ainda surpreendeu o público local com uma música que acabou de escrever sobre Aracaju, logo cantada por todos e que tem tudo para se tornar um dos hinos da bela capital sergipana.

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Aí veio João Silva, com seu jeito moleque, e arrebatou com uma versão (ainda mais) gaiata de “Pagode Russo”.

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Depois, a jovem cantora sergipana Thaís Nogueira mandou ver em músicas do seu pai, Erivaldo de Carira (um dos homenageados pelo Fórum) e num dueto com a cantora Antônia Amorosa, homenagearam Dominguinhos (e Anastácia) em “Eu só quero um xodó”. Mas ainda caberia mais uma surpresa: inspirada pela dupla de compositores, Amorosa improvisou um repente, “Jonildo”, no qual destacou as principais características de João e Onildo. Foi aplaudida de pé.

Já era quase meia-noite quando a programação chegou ao fim, mas ainda houve tempo para autografar exemplares do livro para estudiosos e colecionadores.

Mais do que um evento, graças ao esmero de todos os envolvidos na organização e do brilhantismo dos músicos e compositores convidados, “O fole roncou” em Aracaju foi uma noite de celebração da música e da cultura de um povo, daquelas pra guardar na cabeça e no coração.

Vida longa ao Fórum de Forró de Aracaju!

Manuscritos muito especiais

Reproducao: Abelardo Mendes Jr

 

Uma das alegrias que tivemos com a edição de “O fole roncou!” foi a possibilidade de, mesmo modestamente, dar a nossa contribuição para a preservação de originais de clássicos da música brasileira popular.

Durante a produção do livro, pedimos a alguns de nossos entrevistados que escrevessem as letras de seus maiores sucessos para reproduzirmos em nossas páginas, e eles aceitaram a proposta. Assim, no livro, surgem manuscritos de músicas conhecidíssimas como “Severina Xique-Xique” (escrita por João Gonçalves), “Danado de bom” (João Silva), “Eu só quero um xodó” (Anastácia/Dominguinhos) e “Homem com H” (Antonio Barros).

Acima, uma dessas preciosidades: a letra de “A Feira de Caruaru”, manuscrita especialmente para o livro por seu compositor, o radialista pernambucano Onildo Almeida. Gravada em 1957 por Luiz Gonzaga, a música se tornou um dos maiores sucessos do Rei do Baião e a história da canção é contada no capítulo “Tem de tudo na feira”. Onildo inclusive explica a origem de dois termos quase indecifráveis: “carça de arvorada” (tipo de brim semelhante à lona, que trabalhador usava na roça a semana inteira, depois lavava e usava para ir à cidade) e “caneco acuviteiro” (na verdade, “alcoviteiro”, porque ficava entre o namorado e a namorada, na mesa da sala, à luz do candeeiro, pois não havia luz elétrica nas casas).

Esses manuscritos, como diz a letra de Onildo, faz gosto a gente ver!

 

Mas… e a palavra “forró”?

É antiga a discussão em torno da origem da palavra forró.

Há quem defenda a tese de que ela surgiu do inglês “for all”. Isso porque, segundo contam, os ingleses que se estabeleceram no Nordeste para construir a ferrovia tinham o hábito de promover festas, algumas exclusivas para eles, outras abertas ao público. Nessas ocasiões, colocavam uma placa na porta do barracão: “For all”, ou seja, para todos. Na mesma linha, a presença de militares norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial, teria provocado o uso da corruptela da expressão “for all” – esta versão inclusive batiza um filme brasileiro, “For All – o Trampolim da Vitória”, de Luiz Carlos Lacerda. Nenhuma delas, contudo, é comprovada.

A outra teoria é de que forró é uma contração de forrobodó, como eram chamadas as festas no sertão, que sempre acabavam em confusão. E a expressão teria passado a ser comumente usada a partir do uso no título de músicas como “Forró de Mané Vito” e “Forró em Limoeiro”, sucessos, respectivamente, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Em “O fole roncou! Uma história do forró”, preferimos não nos aprofundar nessa discussão, considerando que esse não era o foco do livro e correríamos o risco de não chegar a uma conclusão. Por outro lado, consideramos que faz muito mais sentido a segunda versão, referendada por depoimentos de artistas como Marinês e Biliu de Campina, transcritos no livro.

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– Esse negócio que a palavra forró veio de for all é frescura. Vem de forrobodó, forrobodança, música do pé-rapado, música da ralé. Significa festa, fuzarca, pagode, zamba, zambê, samba, pagode, função, brinquedo. Forró é um local onde se canta tudo. Forró é tudo. Não é ritmo, nunca foi – defende Biliu (foto).

– Isso começou quando Jackson do Pandeiro começou a cantar “Eu fui pra Limoeiro e gostei do forró de lá”. Mas o forró é o espaço onde se dança, não a música que se canta. Alguém se aproveitou de Jackson, de Gonzaga, de Marinês… E tudo virou forró – garante Marinês.

Em 1948, no seu livro “Brasil Sertanejo”, uma de nossas fontes de pesquisa, Zé do Norte já dava a definição para forró: ““Baile na roça. Significa também barulho, conflito.”

Na entrevista que nos concedeu para o livro, Onildo Almeida, compositor de “A feira de Caruaru” e outros grandes sucessos de Gonzaga, se deteve sobre o assunto:

– Eu, quando tenho uma oportunidade, contesto a versão que os intelectuais dão ao forró, dizendo que foram os americanos que chegaram aqui e batizaram: “For all, música para todos”. Não é. O forró nasceu no tempo em que não existia baião, não existia xote, não existia música nordestina. Ela existia, mas não tinha definição de nada, era o samba do matuto. “Hoje vai ter um samba no brejo de fulano, no sítio, na fazenda de fulano”. Um samba queria dizer uma festa. E no outro dia, vez por outra, aparecia comentário: “Olha, no samba de fulano teve um forrobodó da moléstia, mataram um, esfaquearam não sei quem, teve uma briga não sei com quem…” Deram esse nome, forrobodó. Como esse acontecimento, a que deram o nome de forrobodó era comum nos sambas do matuto, aí começaram a dizer “no forró do fulano”. Aí vem Luiz Gonzaga com o baião, criou o xote, marcha junina, saiu criando coisa. Em 1946, ele lançou o forró, Forró de Mané Vito… Eu tenho essa dúvida, se foi Luiz Gonzaga, mas eu diria que ele criou, ele definiu. Gonzaga criou o forró, o forró de Mané Vito, daí por diante foi o forró do fulano, forró do sicrano, forró não sei de quê… Virou um gênero, e um gênero tão forte que englobou todos os outros ritmos. Forró hoje é qualquer música nordestina, coco, baião, xote, arrasta-pé, marcha junina…

Onildo se arrisca até a inverter a versão de  que “for all” deu origem a forró:

– Eu deduzi que deve ter acontecido o seguinte: aportavam muitos navios no Recife e os marinheiros iam pro cassino americano, no Pina, e lá se tocava forró. Então, eles devem ter perguntado: “O que é isso?”. E o cabra respondeu: “É forró”. E um disse pro outro:  “É for all”. Que dizer, foi exatamente o contrário. Isso pode ter acontecido, mas dizer que eles batizaram de forró não cabe na cabeça! (Rosualdo Rodrigues)

 

Foto de Biliu de Campina: Carlos Marcelo

Onildo, o sincero amigo do Rei

Um dos personagens que aparecem com destaque no livro é o compositor e radialista pernambucano Onildo Almeida, que brilha em capítulos como “Tem de tudo na feira”. Além de fornecer histórias impagáveis graças à memória prodigiosa, Onildo nos presenteou com o manuscrito de seu maior sucesso, “A feira de Caruaru”, reproduzido na abertura do segundo caderno de imagens (o livro contém fotos, reproduções de capas de discos e também manuscritos de compositores como Anastácia, Antonio Barros, João Gonçalves e João Silva).
O que pouca gente sabe é como nasceu a amizade do caruaruense com Luiz Gonzaga, ainda em 1957.
Toda vez que ia à cidade pernambucana, o que fazia com freqüência, Seu Lua encontrava o amigo, de quem gravou mais de 20 músicas. “Ele gostava muito de Caruaru, decantou muito Caruaru, tinha quatro ou cinco músicas falando da cidade. Perguntavam a ele ‘rapaz, você é de Caruaru? Você canta tanto Caruaru’, e ele dizia ‘sou filho postiço de Caruaru, com muito orgulho’. Aqui ele se hospedou muitas vezes lá em casa. Sempre que ele passava por Caruaru ia lá em casa, me mostrava o trabalho pra eu dar opinião”, contou Onildo, hoje um elegante senhor de 83 anos, que se mantém em atividade à frente da Rádio Cultura de Caruaru, da qual é proprietário, ao lado do irmão.
Em entrevista concedida para o livro no hall do Museu do Forró, em Caruaru, Onildo lembrou que a amizade, inclusive, o permitia emitir opiniões que nem sempre agradavam a Gonzagão. “Eu dava muito pitaco na vida de Gonzaga e ele ficava meio… ‘você acha?’, e eu digo ‘acho’. Ele voltava: ‘É, você tinha razão?’”.
Uma dessas vezes foi quando o cantor apareceu por lá com o disco De fiá pav inas mãos. E foi logo se pavoneando:
–  Você não me mandou música, pois olhe, eu gravei o disco, tá aqui. Vendi 150 mil cópias.
–  Vendeu 150 mil cópias, mas o título do disco tá errado.
–  Nããão! É De fiá pavi, sim, e é o sucesso do disco.
– É não…
– E por que tá errado?
–  Por que o ditado é “de fio a pavio”, não é “de fiá pavi”, não.
– É, mas já…
– Mas mas, não.. Tá errado, tá errado. Eu não aceito. Não é minha opinião que você quer? Minha opinião é essa.Depois disso, Onildo ouviu o disco todinho e disse mais ao amigo.

– Olhe, só tem uma música aí que vai puxar o disco. Não é essas coisas não, mas é bonitinha. É água com açúcar, agrada. É “Nem se despediu de mim”.

“Aí quando é 20 dias depois, ele vem de Exu e diz ‘mas rapaz, você é um danado. A música que tá puxando o disco é ‘Nem se despediu de mim’. Então, eu adquiri uma certa credibilidade”, me contou o compositor, na entrevista lá em Caruaru. Mais sobre Onildo, incluindo uma improvável e inspiradora incursão dele no primeiro Rock in Rio, de 1985, você encontra nas páginas de “O fole roncou!” (R.R).